MASSAGEM: A ARTE DO TOQUE

        O tato é o primeiro sentido que se desenvolve na formação do organismo. No período intrauterino o feto já é “tocado” pela placenta e tecidos e assim recebe esta informação tátil, que ficará gravada na sua memória somática.
     Desde muito cedo, o bebê busca a linguagem do tato tanto no sentido de ser protegido e cuidado, como na relação com a mãe e posteriormente com o mundo. Se no início da vida o toque for fluente (incluído o período intrauterino, em que a mãe pode dar o tempo e atenção para o próprio organismo “tocar” o feto), temos um resultado na formação comportamental ao longo da vida: estabilidade psicossomática, segurança e fluência na comunicação.
     “O toque é uma necessidade comportamental básica, na mesma proporção que respirar é uma necessidade física básica”    ( Montagu,1971)
     A linguagem tátil desempenha um papel de profundidade na interpessoalidade, prestando-se como uma ferramenta para o estímulo à curiosidade e prudência, à solidariedade, à afetividade, à responsabilidade, à suavidade, ao compromisso pessoal e coletivo, fatores fundamentais para a estética da sensibilidade.
     Os mamíferos, incluindo os seres humanos, que têm o sistema límbico no seu cérebro, e assim o potencial da afetividade, desenvolvem a linguagem tátil. Os animais usam diversas partes do corpo e até a língua para interagir por meio do toque e os humanos usam com mais frequência as mãos.
       A massagem é em primeira análise, o ato intuitivo de tocar o corpo; um gesto de despertar, acariciar, proteger ou aliviar algum incômodo. As suas origens remontam as mais remotas épocas da vida humana.
      A pele é o instrumento de ligação entre o tato como sentido e o tato como linguagem expressiva, e ocupa aproximadamente 12% do peso total do corpo.
     A pele e o sistema nervoso originam-se na mais externa das três camadas das células embriônicas, a ectoderma.
     “O sistema nervoso é uma parte escondida da pele, ou, ao contrário, a pele pode ser considerada como a porção exposta do sistema nervoso”  ( Montagu, 1971)
     Assim, o toque é o instrumento que potencializa o fluxo das redes neurais, permitindo tanto o estímulo como o relaxamento. A sensação de ser tocado transita entre o acolhimento e a resistência e entre o prazer e a dor. Sempre preferimos o acolhimento e o prazer, mas a resistência e a dor são os fatores sinalizadores dos nossos padrões estagnados, que devem se  transformar para a nossa evolução. A função da dor é atrair a nossa atenção para o que não está equilibrado no organismo físico, na psique, nos canais de energia (meridianos) e nos corpos extrafísicos.
   A massagem é entrar em sincronia com a vibração do outro, sentir o que está faltando e o que está em excesso, perceber onde o corpo está fragmentado e torná-lo integrado. Por isso a massagem é uma arte muito sutil, requer e potencializa a sensibilidade. A sensibilidade permite tocarmos no outro nos limites da dor produtiva, que libera os resíduos e as emoções estagnadas, e no limite do prazer produtivo, como um ato de amor universal e integralidade e não como uma intenção sexual.
     Infelizmente a massagem passou a ter uma conotação sexual e o toque foi esquecido como linguagem de aprimoramento do ser. Nós nos tornamos quase desconfortáveis e amedrontados  com o toque. Quantas pessoas nós permitimos tocar no nosso corpo todo? E quantas nós tocamos?
     Se cultivarmos a percepção que o corpo é um templo que abriga a vida, tocaremos no outro com o respeito que gostaríamos de receber ao ser tocado, e assim, dissipando nossos temores e traumas e desenvolvendo a reciprocidade inerente na interpessoalidade.
     Assim podemos ser tocados em todo nosso corpo sem receio, sem reações voluntárias ou involuntárias de retrações, totalmente conscientes e presentes no momento do toque, sem a urgência que se manifesta nos extremos da dor ou prazer, que são nossas defesas e projeções. Atingimos um estado de receptividade física e atividade sensorial que propicia a oportunidade de resignificarmos os nossos apegos, mágoas, culpas e raivas e realinharmos no nosso corpo e nossa alma.
     A massagem pode ser feita em qualquer pessoa e em qualquer circunstância: na gestação, nos bebês, nas crianças, nos adolescentes, nos adultos e idosos, independente do seu estado de saúde, no pré e  no pós operatório.
    Existem muitas maneiras e técnicas de massagear. Para discernirmos o tipo da comunicação tátil, dividimos em cinco camadas com exemplo de aplicação:

  • Pele. Estímulo neurosensorial pelos deslizamentos.
  • Camada subcutânea. Meridianos chineses (shiatsu, tui na e do in), reflexologia.
  • Tecido conjuntivo e músculos. Liberação miofascial, alongamentos e bioenergética.
  • Ossos e articulações. Organização postural, direções ósseas, mobilidade articular.
  • Camada extrafísica. Polarização, harmonização dos chakras.
       


   De acordo com a circunstância enfatizamos as camadas que permitam a harmonização e integralidade do organismo físico e energético do massageado, mas a sensibilidade é a premissa para qualquer método de aplicação, pois permite a conexão entre o massageado e massagista e a percepção dos limites acessíveis nesta linguagem do tato.

Sensibilidade, arte, tocar, massagear e ser massageado. Bons caminhos!

 

SIDNEY DONATELLI.
Massoterapeuta desde 1983. Professor de Movimento Consciente desde 1979, Fundador e Diretor da Escola Amor. Coordenador do Curso de Formação em Massoterapia.Pesquisador e autor de material didático do Taoísmo e Medicina Tradicional Chinesa e Massoterapia. Autor do livro Macro e Microcosmos, Mapa dos Meridianos Chineses, Caminhos de energia. Atlas dos meridianos e pontos para massoterapia  e acupuntura (no prelo). Iniciado pelo mestre taoísta Wu Jyh Cherng .Membro do colegiado do Combramasso.