O
tato, o toque e a psique
Integração da Psicologia e da Massoterapia
A
repressão ao tato trouxe muitos prejuízos para a humanidade,
do ponto de vista psicológico. Ao incentivar-se o uso do olhar
e da fala, sucumbe-se a uma falsa moral expressa pelo distanciamento
físico.
Não pretendo, através do presente artigo, superestimar
o sentido do tato em detrimento dos outros, mas de recolocá-lo
em seu devido valor, e de postulá-lo como um grande provedor
da consciência corporal, a qual nos possibilita atuar no mundo
com mais segurança, força, suavidade e afetividade. O
encontro com a verdade somática que nossa vida moldou em nossos
músculos e tendões nos leva a conclusão de que
é mais simples “mentir com as palavras verbais do que com
palavras táteis”.
(Austragésilo, A. - Curso de Massagem Oriental – A Linguagem
do Tato).
Considerando que o ser humano pode viver seus processos internos e comunicá-los
através de alguns canais, a saber, o da sensação
corporal ou propriocepção; o da visualização;
o da audição; o do movimento ou cinestesia; e o dos relacionamentos,
dentre outros; vamos refletir sobre o uso deles. Nós usamos todos
esses canais (e outros), o tempo todo, porém nos identificamos
apenas com alguns deles. Os que usamos conscientemente ficam ocupados
por nossa percepção consciente, e os que não percebemos
que usamos nossa percepção inconsciente os capta.
Se um canal como o da visualização estiver “ocupado”,
então concentrar-se nele dá uma sensação
de familiaridade. Se um canal estiver sem uso ou “desocupado”,
focalizá-lo dá uma sensação singular, profunda,
como se fôsse um sonho. (Mindell, A, Percepão Consciente)
Voltando para a questão do tato, e do toque, podemos pensar que
um dos canais menos desenvolvidos na maioria das pessoas é o
da sensação corporal ou propriocepção, este
portanto possibilitado de se acessar através do toque na pele.
Esse desuso significa que não prestamos atenção
à temperatura do nosso corpo, a seus pontos de pressão
ou tensão, entre outras sensações.
Um dos meios de despertar esse canal é a massagem, pois ela intensifica
a percepção consciente de partes do corpo que, habitualmente,
não conseguimos tocar. Até estados alterados de consciência
podem ser induzidos por essa técnica milenar, quando se provoca
em quem a recebe uma troca de canais normais em favor de uma intensificação
de sua propriocepção por meio de toques, alongamentos
e descontração de sua musculatura. Porém, quando
se faz uso da massagem com o objetivo terapêutico, o que se visa
é a descontração muscular, e em técnicas
orientais o equilíbrio da energia vital (que se encontra nos
meridianos trabalhados na acupuntura). Há de se destacar também,
que pode se ter o objetivo ainda mais profundo e completo de busca de
uma nova postura corporal, um novo jeito de estar no mundo.
Quero enfatizar agora, que se o toque terapêutico leva a uma nova
consciência corporal, por que então não usá-lo
em processos de psicoterapia? Dentro de critérios claros, realizado
por um profissional que domine bem a técnica e goste de utilizá-la,
e depois de um psicodiagnóstico bem feito, o toque pode acelerar
o processo de descoberta de conteúdos inconscientes, e facilitar
assim o trabalho do psicólogo. Afinal, “crescimento psicológico
sem consciência do corpo é como uma árvore sem raízes”.
(Mindell, A, O Corpo Onírico).
Reconhecer quando os processos mudam para visualizações
ou para questões de relacionamento durante uma massagem enriqueceria
a experiência, mesmo se o terapeuta apenas perguntasse sobre a
visão e a questão de relacionamento, sem qualquer aprofundamento.
A psicoterapia muito se beneficiaria se pudesse contar com o trabalho
do toque aliado com a busca de significado dos sonhos e sintomas.
Irene Begliomini
Psicoterapeuta Corporal
Escola Amor

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