Manutenção da Saúde e Prevenção dos Problemas Posturais

Entrevista de Sidney Donatelli, fundador e diretor da Escola Amor e diretor da Associação de Massagem Oriental do Brasil, publicada no jornal Vida Integral.


1. Multiplicam-se os profissionais que tratam de coluna e postura. Por que tantos problemas na estrutura física do ser humano?
São vários fatores que interferem na nossa estrutura física:

1. Hábitos de postura, que estão ligados aos nossos sentimentos, humores e à forma com que nos relacionamos com as situações e pessoas. Por exemplo, uma projeção excessiva anterior do tórax numa pessoa que vive em posição de liderança, ou uma introjeção do tórax em uma pessoa com tendência à angústia.

2. Hábitos em posições de descanso, onde deitados ou sentados encontramos posições aparentemente confortáveis, mas que muitas vezes se aproximam mais do “largado”, ou seja, relaxado, mas desorganizado. Por exemplo, lendo ou vendo TV.

3. Hábitos de determinadas posições em atividade, como segurar o telefone com o ombro, usar computador virado para um lado, carregar peso repetidamente de um só lado, apoiar o corpo no braço ou em uma perna, etc. Estas posições são adotadas para “dar conta daquele momento”, mas são privadas da noção do corpo como um todo.

4. Compensações necessárias para as pessoas que usam o corpo como instrumento de trabalho, em esportes, artes, ou atividades “braçais”. A pessoa pode ter um domínio excepcional do corpo para aquela atividade, o que não significa a percepção dos seus limites e da totalidade da sua saúde física.

2. Qual a parcela de culpa da vida moderna com seus hábitos desumanos de vida?
A partir do período da revolução industrial nos séculos XIX e XX, passamos a ficar mais tempo sentados nas nossas atividades profissionais, em locais fechados, e com movimentos mecânicos e repetitivos, o que desestruturou a dinâmica somática (corporal) na performance dos (antigos) artesãos e trabalhadores em geral.
No final do século XX, com advento do computador, agravou-se a falta de preservação na anatomia do nosso corpo, e a nossa natureza de seres bípedes e flexíveis foi abalada, gerando seres sedentários e estressados.
A partir deste contexto, na década de 70 e mais fortemente na década de 80, no Brasil, começou-se a desenvolver a necessidade de uma “atividade física”. As pessoas (da classe média e alta) começaram a fazer ginástica e “teste de Cooper”, alguns tiveram problemas cardio-vasculares. De lá para cá proliferaram-se muitos métodos para suprir a falta de atividade física no cotidiano da vida moderna.
No nosso ponto de vista, achamos que independente de um método, precisamos desenvolver a consciência da auto-preservação, usamos o termo Educação Somática, ou seja, o conjunto de atividades que podemos adotar no cotidiano em relação à preservação da nossa natureza anatômica e fisiológica.

3. Como a medicina oriental, que trata o ser humano como um todo, explica esses problemas?
A falta de interação harmônica com as nossas fontes de manutenção de energia – respiração, alimentação e interpessoal – são as origens destes problemas.
A medicina oriental concebe o ser humano como um microcosmo inserido no macroscosmo (universo), ele tem a consciência para observar e se inteirar harmonicamente com os ciclos da natureza (a acepção da palavra natureza corresponde à força ativa que estabelece e conserva a ordem natural de quanto existe). Em outras palavras, buscar o caminho do meio evitando os extremos e a obsessão.

4. O que provoca o desequilíbrio da energia e por que isso é tão sério?
Segundo a medicina oriental os desequilíbrios e doenças são causados por fatores exógenos, ou externos como os climas extremados (frio, calor, umidade, secura e vento) ou fatores endógenos, ou internos como os desequilíbrios emocionais (raiva, euforia, ansiedade, angústia e medo). Estes fatores desequilibram o QI (energia vital), que é a fonte de nutrição do nosso organismo, desta forma o sistema imunológico fica vulnerável, o que leva a pessoa a uma estagnação ou agravamento dos seus sintomas.

5. Pode-se fazer alguma coisa, na prática, para prevenir esse desequilíbrio?
Sim, podemos desenvolver uma atitude profilática (preventiva). Os primeiros passos são:

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Observar a nossa performance cotidiana, evitando os excessos de atividade mental, emocional e sexual, e adequação aos climas;

- Observar os nossos hábitos e desenvolver a disponibilidade para a auto-transformação;

- Verificar o nosso desempenho corporal de acordo com a nossa idade e tipo de vida que levamos;

- Arrumar tempo e ter dedicação para a nossa manutenção corporal;

- Inserir uma atitude de aprimoramento do corpo no cotidiano;

- Estar em contato com técnicas que alicercem uma organização somática;

- Assumir a responsabilidade pelo cuidado com o corpo.